Testemunho > Pôr novamente cores na própria vida

Artista pintora, talentosa desde a infância, com a chance de ser “bem nascida”, contudo Jeanne viveu esses privilégios como uma deficiência no recolhimento, nas dúvidas, na depressão. Até o dia em que uma provação real fez com que ela começasse a enxergar a necessidade dos outros e pusesse novamente cores em sua própria vida.

Quando menina eu fui educada na igreja católica e gostava muito disso, pois tinha uma ligação muito natural com Deus, pela beleza da natureza que rodeava nossa casa, pelo amor da minha avó, da minha mãe... Eu era rodeada de amor... E então, um dia me puseram num internato e tudo mudou. De um só golpe eu estava abandonada, incompreendida, desarmada... Não era lá em cima que me abandonavam. Eram as pessoas da minha própria casa. E não recebendo mais esta graça da infância, nem a confiança dos adultos, eu me fechei completamente em mim mesma.

Ao invés de me expandir, me fechei

Mais tarde, aluna de Belas Artes, esta reclusão só aumentou. Eu já tinha um complexo em relação à minha família. Família feliz e muito visada na cidade onde eu estava, quando tinha primos que não tinham a mesma sorte, o que gerava em mim um sentimento de vergonha. Vergonha desta família rotulada “grande burguesa da província” e também vergonha dos meus talentos artísticos que eu vivia como uma injustiça suplementar em relação aos outros. O que gerava um comportamento completamente insuportável. Ao invés de me expandir, eu me fechei. Esperava que me amassem pela minha pintura, pensando transmitir o melhor de mim mesma através dela, mas eu era incapaz de dar a mínima atenção aos outros. Pois eu tinha medo de mostrar o que fazia. Medo das críticas. Medo da minha sombra. Eu apresentava a minha pintura como se eu me desculpasse, e encontrava saídas que me deixavam cada vez mais deprimida, doente, exposta a todas as dúvidas...

Um outro olhar

Hoje eu sorrio quando volto a me ver tão amarrada! Porque depois me aconteceram coisas muito graves, principalmente uma verdadeira prova no plano da saúde, e eu as atravessei com uma serenidade e uma confiança que me parecem milagrosas. Se na época me tivessem dito, quando eu estava tão sensível, que depois de uma delicada operação da cabeça que durou 20 horas, eu iria perder totalmente a visão de um olho, mas que eu a viveria como uma possibilidade de me abrir a um outro olhar sobre o mundo que me rodeia, sobre a alegria, sobre a vida, eu teria gritado “Que loucura!” Contudo, é o que se passou.

Esta transformação começou no dia em que encontrei Yvonne Trubert, fundadora de Convite à Vida. O que me impressionou nesta mulher foi a sua escuta. Uma escuta imensa. Totalmente benévola. Ela se inclinava suavemente em minha direção e me dava toda a liberdade para eu me expressar. Jamais eu tinha sentido isso. Eu podia ser quem eu bem entendesse, sem temer qualquer julgamento. E depois ela simplesmente me disse: “Vou ensiná-la a rezar... Podemos rezar o tempo todo e por toda parte, você sabe...” Isto realmente me agradou, esta idéia. Eu sabia que tinha encontrado o meu caminho.

Todos esses talentos dos outros

Entretanto, na primeira vez que encontrei meu grupo de orações, ele me parecia tão extravagante, que não retirei meu impermeável para poder sair mais rápido. Depois, pouco a pouco eu fui tocada, como que cativada pela simplicidade dos laços que se teciam entre nós. Voltei a descobrir a oração, esse diálogo interior com Deus que eu não tinha mais manifestado desde a infância e era tão maravilhoso que comecei a enxergar os outros de outra maneira. Todos os testemunhos me diziam respeito. Eu tinha vontade de ajudar todas as pessoas. Era como se retirassem minhas amarras. Eu, que pensava ter alguns talentos e que os vivia como um privilégio não merecido, compreendia todas as riquezas de cada um, todos esses talentos diferentes... Pouco a pouco eu me abria aos outros e a mim mesma.

Hoje eu tenho consciência de que todo esse amor imenso que eu reclamava no meu íntimo, sem que jamais eu soubesse dá-lo, está ao meu alcance. Eu o encontro certamente também fora do círculo de Convite à Vida. Algumas vezes é preciso provocá-lo. Adiantar-se àqueles que por mil e uma razões me são espontaneamente antipáticos ou verdadeiramente insuportáveis. O que para mim antigamente era impossível de fazer e que se assemelha com muita freqüência a um salto de obstáculos. Mas eu agüento firme. O aprendizado no seio do grupo e a força da oração me dão coragem para isso. E percebo que a cada vez que dou o primeiro passo, é extraordinário! Tudo se torna límpido, luminoso. Como se desde sempre o outro esperasse esse momento.

Fazer as cores cantar

Quanto à minha pintura... eu não preciso mais de reconhecimento a qualquer preço. Não é o caso de mudar de estilo. Ao contrário. Esse caminho no IVI me permite compreender melhor o que eu fazia antes intuitivamente, podendo me aprofundar no que sou. Ao me reconciliar comigo mesma, encontrei a paz e uma verdadeira liberdade. Eu adoro fazer as cores cantar. Todas têm a sua música. Quando uso o preto, por exemplo, não vejo uma cor triste. Sei que pela magia da arte, o preto acaba prestando homenagem à luz. E agradeço ao céu, todos os dias, por ter me dado esse dom.

 

Jeanne