Testemunho > Quando material e espiritual rimam
Jovem, morando fora de Paris, sempre sonhara com esta cidade. Assim, logo que recebi meu diploma de bacharel, mudei da província para a capital. Eu tinha a consciência de estar abandonando todas as facilidades que poderiam me ser dadas, para ali fazer carreira. Tinha tido uma infância feliz, numa família da antiga burguesia local. Mas era indispensável para mim deixar este universo confortável. Era preciso que eu ousasse, que eu conseguisse vencer por mim mesmo!
As ambições materialistas
Em Paris encontrei imediatamente um trabalho, conheci pessoas... Me senti como uma borboleta fascinada pelas luzes da cidade, e comecei a levar uma vida de solteiro que eu diria agradável e sem problemas... De fato, eu tinha deixado para trás tudo o que havia sido minha educação católica e minhas perspectivas eram essencialmente materialistas. O que me interessava nesses primeiros anos (paradoxalmente, pois eu não tinha nenhum plano de carreira), era ganhar um bom dinheiro, conhecer muitas pessoas, sair, me casar com uma mulher muito bonita, ter um carro grande e mais tarde uma casa grande... Este ideal combinava muito bem comigo.
Mas quando eu entrara profundamente nesta trajetória, alguns amigos que acabavam de entrar no IVI começaram a me falar de Yvonne Trubert, me dizendo que seria uma boa idéia que eu fosse vê-la. Para mim, que não estava pedindo nada, a idéia me parecia incongruente. Eu não compreendia muito bem quem era esta mulher, nem o que eu poderia lhe contar.
Entretanto, eu me aproximava dos 30 anos, e começava a me perguntar bem objetivamente se um dia eu chegaria a obter todas essas riquezas materiais que eu esboçava como meta. Francamente eu não era realmente feito para isso. De temperamento mais para tímido, um pouco poeta, e decididamente demasiado honesto para ter atração pelo ganho necessário a todas essas ambições.
Foi aproximadamente nessa época também que comecei a sentir vagamente, em certas ocasiões, de repente, a presença de Deus. Era como se fossem pequenas chamadas... Mas a cada vez com muita intensidade. Este contato com o sagrado, eu o tinha afastado totalmente da minha vida desde a idade dos 12 anos, sem qualquer conflito particular; era uma página virada, e eu pensava que ela estava virada para sempre... E de repente eu voltava a ter essa fé de criança que me perturbava... Então, convencido que não havia acaso e que certamente havia nisso algo a aprofundar, eu me disse que um encontro com Yvonne seria talvez a ocasião de esclarecer tudo isso.
Os alimentos espirituais
Após 2 anos de resistência, este encontro se fez. E eu, que sou bem pouco inclinado à introspecção, me vi a falar de mim como nunca eu tinha feito. Nunca eu tinha me aberto assim. Nunca eu tive uma tal escuta e uma troca tão atenta. E eu ainda ouço suas palavras: “Você verá como através da oração e da consciência do amor de Deus, o mundo ao seu redor vai adquirir um sentido e a vida se tornará interessante.” Era uma espécie de revelação tranqüila. A evidência da existência de Deus, e além dos meus objetivos puramente materialistas, havia perspectivas mais ricas e profundas.
O primeiro contato com um grupo de orações, contudo, foi curto. As pessoas pareciam gentis, mas sem grande interesse. É preciso dizer que eu não tinha ainda transformado esta visão utilitarista que eu tinha das relações com os outros, e eu não via em que elas podiam me beneficiar... Depois da primeira reunião eu disse: “Até a semana que vem” e não voltei.
Um ano se passou. Muitas coisas provavelmente se modificaram em mim, pois refiz a tentativa num novo grupo e ali fiquei. O que me fez permanecer, principalmente num primeiro tempo, foi a força da oração. Isto foi uma descoberta imensa. Eu tinha a impressão de que as portas se abriam, que eu estava encontrando algo que eu procurava sem o saber... algo extremamente caloroso... O amor, sem dúvida, e que me fazia ver a vida de uma outra maneira.
Uma mudança positiva
A repercussão no meu ambiente profissional (trabalho numa grande empresa) foi rapidamente tangível. A comunicação com os outros se tornava mais fácil. Pouco a pouco eu sentia desaparecer esta timidez que frequentemente impedia os contatos. E o que me agradou e convenceu que não era ilusório, é que um dia alguém que não conhecia de modo algum o meu percurso, me disse que eu havia mudado muito, que ele sentia em mim uma mudança profunda e positiva. Era como se tudo se tornasse mais claro, mais fluido. Eu também compreendia que não havia hiato entre a vida espiritual e a vida material, se sabemos fazê-la viver em boa harmonia. Foi quase nessa época que eu me casei e tive a chance de me casar com uma mulher que faz o mesmo caminho de Convite à Vida.
Certamente eu ainda travo combates dentro de mim. Entretanto, minha fé em Deus está presente, sólida. Hoje eu sei que é uma coisa séria, verdadeira, e que eu não me engano. Sei que pude ajudar muitas pessoas à minha volta através deste ensinamento de amor que recebi. E consolar as pessoas que sofrem é um presente fantástico.
Dar o melhor de si
Para sintetizar, aconteceu de em algumas ocasiões muito difíceis eu cair no fundo do buraco. Na pior das hipóteses, eu não conseguia mais restabelecer contato com a oração... Mas isso não significava que eu não tinha mais fé ou que rejeitava tudo. Porque há uma coisa que eu guardo sempre presente no espírito: “A árvore é reconhecida pelos seus frutos”. E o que eu constato em Convite à Vida é que cada um é estimulado a expressar o melhor de si mesmo. Nas situações mais tensas, por vezes, que poderiam gerar verdadeiros conflitos em qualquer lugar fora dali (no mundo “civil”, eu vou dizer), procuramos não apenas manter uma porta aberta, quando seria mais fácil batê-la. Mas estendemos a mão, tentamos compreender e não renunciamos jamais ao último esforço que voltará a nos pôr em empatia com o outro, com os outros... independente do preço a pagar.
Pierre
Eu aprendi também a não mais me sentir culpada : quanto mais nos culpamos, mais comemos.
Eu não suportava mais esta escravidão, esses frenesis que me faziam descer à rua para comprar tudo e mais um pouco para comer... Num dado momento eu decidi aceitar meu corpo. A oração me salvou, ao representá-lo para mim como o templo de Deus, um receptáculo sagrado como uma igreja, que é preciso manter para que a alma seja bela e não fazer dela uma lixeira. Eu ainda comia muito, mas não tinha mais crises compulsivas. Eu aprendi também a não mais me sentir culpada : quanto mais nos culpamos, mais comemos.
Uma outra “técnica” me ajudou bastante : pensar em toda a cadeia de pessoas que produz o alimento que chega a nosso prato. Comendo pão, eu pensava no camponês que tinha cultivado seu trigo, naquele que o tinha cortado, no moleiro que tinha moído a farinha, no padeiro... Esta cadeia de amor me vinha ao espírito por si só e me obrigava a honrar tudo o que eu engolia.
Meu regime: partilhar a comida com amor
Antes de atingir esta forma de sabedoria, eu tentei todo tipo de regime. O mais equilibrado era o Weight Watchers que eu segui durante um ano sem falhar uma única vez. Durante este ano eu era acompanhada, depois “largada na selva”, para ficar independente. No último dia, quando nos despedimos, persuadidos de que agora éramos grandes, eu comi de uma vez três queijos camembert, dois filões de pão, etc. Eu me via estragar um ano de esforços, sem poder fazer nada. Eu compreendi, a seguir, que não era um ano de esforços, mas de vontade. Não é a vontade que constrói, mas poder abandonar-se a Deus. A verdade não está na opressão, mas na busca da liberdade e do equilíbrio. Durante anos eu me proibi partilhar refeições para não comer demais! O regime exclui outros e impede que se aproveite esta alquimia da comida partilhada com amor. Eu me disse: nunca mais. O cálculo das calorias é uma enorme armadilha: eu sabia os valores calóricos de todos os alimentos que eu ingurgitava. Eu passei a barreira dos dois mil, dos três mil... O alimento não é quantitativo, mas qualitativo. É preciso honrar o que comemos, e não calculá-lo.
Repleta da plenitude da vida
Eu encontrei meu peso de equilíbrio depois dos meus partos, que me estabilizaram definitivamente. Por intermédio da gravidez eu me senti “plena”, da plenitude da vida. A comida certamente sempre esteve ligada a meu desejo intenso de maternidade: com vinte anos eu acreditava que ficara estéril devido a uma tuberculose genital. Mas hoje Deus me deu três meninas e, através delas, uma verdadeira harmonia se instalou em mim. Agora eu me sinto completamente livre em relação à comida, apesar de continuar bem gulosa. Jamais voltarei a ser bulímica, enquanto durar este apreço pela felicidade... Eu chego a comer um tablete de chocolate inteiro, mas sem me culpar! Meu marido é suiço: seu irmão pode chegar em casa nos dando de presente um quilo de chocolate! Antes, quando me davam comida de presente, eu jogava tudo no lixo porque ficava aterrorizada. De fato, é bom gostar de todos os presentes que recebemos... Além disso, em certos momentos de nossa vida precisamos de açucar, em outros de sal. É preciso se deixar levar por certas necessidades internas, ditadas pelo nosso corpo.
Eu não chego ainda a comer lentamente, saboreando : com os filhos, não é fácil ! Mas eu sei que a solução não é sentar à mesa, dizendo: “Agora eu vou comer lentamente”. Eu ponho esse problema num canto da minha cabeça e o confio aos anjos e ao Senhor. Se a balança acusa um ou dois quilos suplementares, porque eu fiz muitos excessos, eu o confio também. Eu creio que com a “entrega”, a ternura por si mesmo é a melhor das balanças







